A história da arte contemporânea foi reescrita em poucos dias. Na última quinta-feira, Solange Farkas, curadora brasileira que presidia o júri da 61ª Exposição Internacional de ArteVeneza, renunciou junto com os outros quatro membros do colegiado. A decisão ocorreu apenas nove dias antes da abertura oficial, no meio de uma tempestade política sem precedentes.
O motivo é claro: o conflito entre a missão artística da bienal e as tensões geopolíticas globais. O júri havia declarado publicamente que não premiaria artistas de países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade. Embora não tenham nomeado explicitamente as nações alvo, o foco era evidente — Rússia e Israel. A renúncia coletiva foi anunciada através da publicação especializada eFlux, deixando a organização em um dilema institucional profundo.
O Contexto da Crise Geopolítica
Para entender a gravidade da situação, precisamos olhar para o cenário que se desenhou nas semanas anteriores à abertura. Não se trata apenas de arte; trata-se de como o mundo vê a si mesmo refletido nas paredes dos pavilhões nacionais. A participação da Rússia na bienal já era controversa desde sua ausência nos últimos quatro anos, após a invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022. Em 2022, artistas e curadores russos haviam se retirado como forma de protesto contra a guerra. Agora, em 2026, o retorno gerou reações imediatas e violentas.
No vernissage (abertura para convidados) da terça-feira, 5 de maio, o coletivo feminista russo Pussy Riot, em colaboração com o grupo FEMEN, realizou uma intervenção performática bloqueando o acesso ao pavilhão russo. Usaram fumaça colorida — rosa e as cores da bandeira ucraniana — junto com slogans de protesto. Foi um momento visualmente impactante que ecoou pelas redes sociais globalmente.
Do outro lado do espectro político, a participação de Israel também enfrentou forte oposição. Quase 200 artistas, curadores e trabalhadores associados à bienal assinaram uma carta exigindo a exclusão de Israel da exposição. Mais de 200 pessoas participaram de protestos ao redor do pavilhão israelense, organizados por grupos como a Aliança Arte Não Genocídio (ANGA). As manifestações incluíram gritos de protesto e distribuição de materiais críticos sobre a presença israelense, centradas nas ações militares em Gaza.
A Resposta Institucional
Na quarta-feira, 6 de maio, Pietrangelo Buttafuoco, presidente da Fundação Biennale di Venezia, convocou uma coletiva de imprensa no Teatro Piccolo dell'Arsenale. Sua mensagem foi clara e direta:
"A Bienal não é um tribunal, é um jardim de paz. Não podemos fechar nem boicotar como resposta automática."
Buttafuoco enfatizou que a Fundação não promove a participação de Estados — são eles quem decidem participar. Ele também alertou que os jurados enfrentavam "risco pessoal" de sofrer "ações legais" devido à sua decisão de vetar prêmios para Rússia e Israel. De fato, o artista israelense Belu-Simion Fainaru já havia notificado a bienal sobre uma ação judicial por danos morais alegando discriminação.
Há também a questão logística. Inspetores do governo italiano relataram que, com base nas sanções atuais, a Rússia não conseguirá obter autorizações para abrir seu pavilhão ao público. Consequentemente, o pavilhão russo permanecerá inacessível durante todo o período da exposição, de 9 de maio a 22 de novembro de 2026. No entanto, performances artísticas gravadas serão exibidas em telas durante todo o evento.
Escalação dos Protestos
As tensões escalaram dramaticamente na sexta-feira, 8 de maio, quando trabalhadores culturais, artistas, sindicatos e coletivos internacionais entraram em greve de 24 horas contra a participação de Israel. Segundo relatos da agência de notícias italiana ANSA, numerosos países fecharam seus pavilhões em solidariedade durante este período.
Os países que participaram da ação foram: Áustria, Bélgica, Egito, Lituânia, Luxemburgo, Polônia, Eslovênia, Espanha, Suíça, Turquia, Finlândia, Holanda, Irlanda, Qatar, Malta, Chipre, Equador e Reino Unido — totalizando 18 nações demonstrando oposição através da participação na greve. Esta foi uma das maiores ações coletivas de protesto na história das bienais internacionais.
Antes mesmo da renúncia do júri, o Irã havia se retirado da bienal na segunda-feira, 4 de maio, anunciando que não apresentaria seu pavilhão nacional. A declaração foi feita pelo próprio departamento de comunicação da Fundação Biennale di Venezia, embora nenhuma explicação tenha sido fornecida sobre a motivação do país. O Irã enfrenta conflitos contínuos com Israel e os Estados Unidos.
Uma Nova Era para os Prêmios
A consequência mais imediata da renúncia do júri é a transformação radical do sistema de premiação da bienal. Os tradicionais Leões de Ouro (Leone d'Oro), os prêmios mais prestigiados da instituição que normalmente seriam determinados pelo júri, não serão concedidos da maneira tradicional.
A organização da bienal anunciou que, em vez de prêmios selecionados por júri, a exposição introduzirá "Leões do Visitante" (Prêmios de Visitante), determinados através de votação pelos visitantes públicos durante toda a duração da exposição. Estes Leões do Visitante serão premiados na cerimônia de encerramento em 22 de novembro de 2026.
Todos os participantes da exposição são elegíveis para o prêmio Leão do Visitante "seguindo o princípio de inclusão e tratamento igual", conforme declarou a Fundação Biennale di Venezia. A instituição afirmou que esta decisão é "consistente com o espírito fundador da Bienal, baseado em diálogo e na rejeição de qualquer forma de censura".
Esta é a primeira vez na história da bienal que ela inaugura sem seu sistema tradicional de prêmios principais. Representa um desenvolvimento institucional sem precedentes para uma das exposições de arte mais prestigiosas do mundo.
Perguntas Frequentes
Por que o júri da Bienal de Veneza renunciou?
O júri renunciou porque havia declarado que não premiaria artistas de países cujos líderes fossem acusados de crimes contra a humanidade, focando implicitamente na Rússia e em Israel. Após enfrentar pressão legal e política, incluindo ameaças de processos judiciais, os cinco membros optaram pela renúncia coletiva em 30 de abril de 2026, dias antes da abertura oficial da exposição.
Como será decidido o prêmio principal da bienal este ano?
Em vez dos tradicionais Leões de Ouro escolhidos por um júri, a bienal introduziu os "Leões do Visitante", que serão determinados através de votação pública durante toda a duração da exposição. Os vencedores serão anunciados na cerimônia de encerramento em 22 de novembro de 2026, seguindo o princípio de inclusão e tratamento igual para todos os participantes.
Qual é a situação do pavilhão russo na bienal?
Devido às sanções internacionais, o pavilhão russo permanecerá fechado ao público durante toda a exposição, de 9 de maio a 22 de novembro de 2026. No entanto, performances artísticas gravadas serão exibidas em telas ao longo do período. O pavilhão realizou apenas um vernissage exclusivo para convidados em 5 de maio, onde ocorreu a intervenção do Pussy Riot.
Quais países fecharam seus pavilhões em protesto?
Durante a greve de 24 horas em 8 de maio, 18 países fecharam seus pavilhões em solidariedade aos protestos contra a participação de Israel. Entre eles estão: Áustria, Bélgica, Egito, Lituânia, Luxemburgo, Polônia, Eslovênia, Espanha, Suíça, Turquia, Finlândia, Holanda, Irlanda, Qatar, Malta, Chipre, Equador e Reino Unido.
O que disse o presidente da Fundação Biennale di Venezia sobre a crise?
Pietrangelo Buttafuoco declarou em coletiva de imprensa em 6 de maio que "A Bienal não é um tribunal, é um jardim de paz" e afirmou que a instituição não pode fechar ou boicotar automaticamente países. Ele também mencionou que a Fundação não promove a participação de Estados — são eles quem decidem participar — e alertou sobre riscos legais para os jurados.
Quando a Bienal de Veneza de 2026 termina?
A 61ª Bienal de Veneza está programada para durar de 9 de maio a 22 de novembro de 2026. A cerimônia de encerramento, onde serão anunciados os vencedores dos novos "Leões do Visitante", ocorrerá nesta data final, marcando o fim de uma edição histórica marcada por controvérsias políticas e mudanças institucionais significativas.